5.11.09

A promessa

Estava à beira da morte quando revelou pra filha o que havia prometido ao amigo há muitos anos atrás. Ela, de boca aberta, com lágrimas nos olhos, escutou cada detalhe, pasma. O pai contou que há dezoito anos, quando ela ainda estava na barriga da mãe, ele e Mauro, o amigo, viajaram para pescar. No segundo dia de pesca, quando ele foi urinar no meio do mato, uma imensa onça agarrou-lhe pelo pescoço. Sorte que o amigo acertou um tiro certeiro no felino e o tirou de uma dolorosa morte.

- Como assim pai? Minha virgindade? Você ofereceu o que eu tenho de mais puro para um homem que não conheço? Meu íntimo? Meu âmago?

- Filha. – Explicou o pai. – O Mauro salvou minha vida. – Eu não tinha nada de tão precioso a ceder, então cedi o que é mais puro na minha vida.

- Isso que o senhor ofereceu não é seu, é meu!

- Filha, você não me entendeu...

Depois de um gemido, o velho se foi sem terminar a frase. A mãe, quando soube que a filha já estava encomendada, morreu de desgosto. Com dezenove anos, sem dinheiro e de barriga vazia, Janice caiu, literalmente, de quatro no mundo. Desatarraxou a lâmpada da varanda e, no lugar, atarraxou outra, de cor vermelha. Estava aberta à perdição, entregaria ao primeiro homem o que era, há tempos, prometido a outro.

Logo na inauguração, a casa lotou. A empregada, Dona Teresa, vigiava o bar e, às vezes, fazendo papel de garçom, passeava pela casa carregando uma bandeja recheada de drinques. Oferecia, uma vez ou outra, um aperitivo cortesia para acalmar o nervosismo dos clientes, que ficavam ansiosos no aguardo da vez.

Janice, também ansiosa com a primeira vez, vestiu uma lingerie ousado, mas quando se deparou com o homem nu, relembrou da promessa do pai e ficou receosa. O homem que aparentava ter mais de sessenta anos sentiu o desconforto da moça e vestiu-se rapidamente.

- Não tenha medo, meu caro. – Disse ela. – Só preciso saber o seu nome.

- Gilberto.

Depois de Gilberto, vieram os Josés, Mários, Albertos e muitos outros. Janice descobriu, logo na primeira vez, que havia nascido para aquilo, era prazeroso e lhe rendia dinheiro. Com as portas e as pernas fechadas, fez a contabilidade do dia. Os olhos da empregada brilharam quando a moça Janice, agora mulher, fez a soma total e gritou, ao léu, o valor.

Decidiram contratar algumas garotas, colocaram um anuncio na frente de casa e estamparam num imenso painel os dizeres: “Vagas para mulheres que querem abrir o negócio”. Antes de baterem o último prego do cartaz, a fila já estava formada. Cinco garotas, jovens, belas e sem destino, completaram o espaço vago da casa. Janice era uma boa cafetina, além de pagar os honorários corretamente das moças, entregava cestas-básicas pra cada uma, dava folgas repentinas e sorteava valiosos presentes, as moças a adoravam. Depois de um ano de trabalho assíduo, Janice decidiu fechar de vez as pernas, sem fechas as portas e dar a maior atenção na administração do lugar. Controlava o bar, cobrava os devedores e expulsava os desordeiros.

Numa bela noite de lua, a cafetina estava na porta da casa quando um imenso carro estacionou. O vidro escuro da janela do veículo abaixou-se cuidadosamente. Em seguida, um homem com um rosto que Janice achou o mais perfeito do mundo, perguntou, com uma voz aveludada, sobre ela mesma.

- Sou eu. – Respondeu, ajeitando o decote, mesmo aposentada, Janice não perderia, por nada, um cliente lindo, limpo e cheio da nota.

- Podemos conversar?

Ela o chamou para entrar, mas ele optou que fossem para um lugar mais reservado. Entraram no carro e, por indicação de Janice, foram ao melhor restaurante da cidade. Sentaram num lugar bem reservado, o garçom, elegantemente, acendeu as velas e postou um balde de inox com uma garrafa de vinho sobre a mesa. Jean, assim que se apresentou, iniciou o assunto:

- Sou o único filho de Mauro, grande amigo de seu falecido pai, e viajei até aqui para lhe contar uma história, na verdade, uma promessa...

Foi interrompido com um banho de vinho no rosto. Janice bateu a taça de cristal com força na mesa, antes de mandá-los, pai e filho, para o inferno e fugiu do restaurante. Jean a alcançou no ponto de táxi, agarrou-a pelo braço e notou, apesar da maquiagem borrada pelas lágrimas, que ela tinha uma beleza, extremamente, exótica.

- Meu pai faleceu na semana passada.

Depois que ele fez o comentário, Janice relaxou e deixou ouvir, ele continuou:

- Minha família possui muito dinheiro, o tanto que você nem conseguiria imaginar. Antes de partir, meu pai, deixou uma carta me contando sobre a promessa feita pelo seu pai...

Ela tentou se safar, mas ele a segurou com força pelo braço.

- Como nasci, desculpe a falta de modéstia, em berço de ouro, meu pai, além de toda a grana que me deixaria, queria me entregar algo que eu nunca esquecesse. Alguma coisa que ficasse marcada, diferente e amplamente especial de todos os presentes que alguém poderia receber...

- É, mas já era. Vocês demoraram demais, já acabaram com ele.

- Eu o conserto.

- Ahm? Enlouqueceu? Vai me dizer que já existe plástica pra isso?

- Não plástica, mas existe cura.

- Cura?

Ajoelhou-se então, em frente à moça, e abriu uma caixinha preta. Janice sentiu o reflexo dos brilhantes nos olhos e só voltou a si, quando Jean a pediu em casamento.

- Casar?

- Sim.

- Posso ser tudo nesse mundo, mas não sou de iludir. Na verdade, tem um ano que não sou mais virgem...

- Não ligo.

- Jura? Olha que foi um ano bastante assíduo...

- Seu coração, como está seu coração? Vazio? – Perguntou ele ainda de joelhos.

- Neste caso... – Disse ela com os olhos brilhando. – Meu coração, como o prometido, estava à espera do prometido e se você demorasse mais um pouquinho ele seria canonizado pelo Papa, de tão virgem que é.

6.10.09

O segredo de Talita.

A cada segundo que passava, Talita olhava pra porta e, logo em seguida, pra carteira vazia de Júlio. Estava desesperada pra contar a novidade para o amigo. Seguia com aflição o desenrolar dos ponteiros do relógio.

- Bom dia gente. – Disse a professora, logo que fechou a porta.

Talita estava desacreditada, não teria paciência de esperar os quarenta e cinco minutos da aula com aquela fofoca agarrada na garganta.

- Professora, eu posso ir ao banheiro? – Arriscou.

- Você tinha tempo de sobra pra ir ao banheiro, beber água e o que mais quisesse fazer, agora só depois da prova. – Retrucou a professora com uma, clara, falsa felicidade.

Talita ficou possessa, o sol nem havia nascido por inteiro, todos ainda carregavam remela nos olhos e a professora com aquele sorriso esticado de uma orelha a outra, toda animada.

- Cínica. – Disse Talita entre os dentes.

Abominava aula de Educação Física, ainda mais as realizadas dentro da sala de aula. Olhou novamente pro relógio e os quinze minutos limite, que a professora cedia aos atrasados, estavam contando. Precisava contar tudo para Júlio, era uma questão de vida ou morte.

- Como todos já sabem, eu aplicarei uma provinha, com consulta, sobre as regras do Handebol. – Disse entusiasmada a professora. – Mas só na segunda aula.

- Ninguém merece! – Esbravejou Talita.

- Disse alguma coisa Talita?

- Eu? Não, Não.

Pensou em contar a Carlinha, mas aquilo, pra ela, não soaria como uma fofoca. O tempo passou, lentamente, mas passou. O sinal do primeiro tempo bateu e, graças a Deus, Júlio entrou pela porta. Talita suspirou fundo e ajeitou-se na carteira. Era sua hora. Ele, emburrado como todo dia, sentou-se na carteira.

- Júlio! Tenho um babado pra te contar.

- O quê?

- Você não vai acreditar... Sabe aquela menina...

Uma algazarra tomou conta do ambiente quando a professora pediu que arrumassem a sala para a prova. Carteiras se arrastavam por todos os lados como num estacionamento de shopping em véspera do Natal. A briga por vagas era tremenda, umas cinco pessoas queriam sentar atrás de Leonardo, o mais inteligente da turma. Talita dava cavalos de pau com a carteira tentando estacionar atrás de Júlio, não teve sorte, pois Rodolfo, melhor amigo de Júlio, já tinha estacionado.

- Rodolfo troca de lugar comigo.

- Não!

- Por favor, Rodolfo. – Implorou Talita.

- Quer sentar atrás do namorado? – Brincou Rodolfo, espalhando rapidamente pela sala.

O som das carteiras foi trocado por uma salva de zombarias.

- Está namorando... Está namorando... Está namorando...

- Namoradinhos... Talita e Júlio... Júlio e Talita...

- Vai casar... Vai casar...

- Beija... Beija...

- Chega! – Berrou a professora. - Todos em silêncio e sentados. Já estou entregando as provas.

Não teve jeito, as cadeiras ficaram equidistantes e Talita quatro cadeiras atrás de Júlio. O silêncio era quase total, abalado de vez enquanto por alguns engraçadinhos imitando barulho de flatulências.

Talita sussurrou o nome do amigo e Júlio olhou para trás. Ela mexia os lábios sem emitir som e não tirava os olhos da professora. Júlio mexia os ombros dizendo que não estava entendendo. Ela desistiu de tentar. Fez a prova de qualquer jeito, escreveu um bilhete, levantou e, quando caminhava até a professora, jogou o papel na mesa de Júlio. Entregou a prova e saiu da sala.

Júlio apavorou-se com o papel. Jogou o bilhete no meio das pernas, começou a suar frio. Tentava pegar o bilhete, mas a professora o olhava de rabo de olho constantemente. Disfarçava. Quando a professora foi até a mesa de outro aluno, ele retirou o bilhete das pernas e o colocou debaixo da prova. A professora foi atender outro aluno no fundo da sala e ele desdobrou-o papel uma vez, desdobrou a segunda, a terceira... – Para quê tantas dobras! – Pensava Júlio.

- Júlio me entregue esse papel agora! – Sentenciou a professora.

- Pa-pa-pel? – Gaguejou.

- Esse aqui. – Disse a professora puxando o papel debaixo da prova.

- Não é cola não professora.

- Sei, sei. Isso custará caro para o senhor.

Com a cara fechada, a professora começou a desdobrar o bilhete. Desdobrou uma, duas, três vezes... – Bem dobrado. – Pensou, também, a professora. Quando desdobrou a última parte, leu o que estava escrito: “Estou na cantina, te conto tudo lá”.

28.9.09

Tradição familiar

Assim que pisou com o pé esquerdo no bar, Altamiro notou a estranha faceta do português, que passava, intensamente, o pano sujo no balcão. Olhou ao redor e presenciou, na maior tranquilidade, o exato momento em que a esposa selou um beijo na boca de outro homem. Altamiro encostou-se ao balcão, onde sempre estacionava a barriga, respirou fundo e pediu uma cachaça. Prontamente o português, desatarraxou a torneirinha do pequeno barril e encheu meio copo americano com a malvada. Virou de uma vez só e aterrissou com força o copo no balcão, Noêmia, a esposa, avistou-o.

- Amor! Você está aí? Esse daqui é meu primo, o Jorge. Lembra que já falei dele pra você?

Jorge era um sujeito estranho, vestia uma jaqueta de couro preta, carregava um imenso bigode e, entre os espessos pêlos da face, cobrindo toda a boca, Abelardo notou que havia batom, na cor vermelho sangue. A esposa, rapidamente, pegou o marido pelas mãos e levou até a mesa onde estavam.

- Primo, esse é o Altamiro, meu marido.

- Altamiro, esse é o Jorge.

Jorge levantou, sacou um pente do bolso de trás da calça jeans e passou vagarosamente pelo cabelo, antes de apertar a mão de Altamiro.

- Estou aformoseado com a sua preclara presença.

Altamiro desvencilhou-se das mãos do homem e, ressabiado, se afastou.

- Um segundo. – Disse indo de encontro ao balcão, deixando os dois para trás.

O português que estava a todo o momento observando a conversa, afoito, chamou Altamiro até ao fundo do bar.

- Estão se beijando desde a hora que chegaram. – Disse aos sussurros, com o sotaque mais carregado que o normal.

Altamiro passou a mão no rosto, tentando disfarçar a angústia.

- Eu escutei tudo. – Disse o gajo esbaforido. – Chamou-te de afeminado e de outro palavrão que não escutei muito bem.

O português, totalmente desnorteado, pegou uma escada velha de madeira e encostou-a numa estante. Subiu com dificuldade os degraus e esticou a mão para alcançar um pequeno frasco. Desceu devagar e entregou para Altamiro.

- O que é isso?

- É veneno de rato. – Exclamou o português. – Está fora da validade há anos. Duas gotinhas no copo e é tiro e queda. Acabe com isso de uma vez por todas.

- Endoideceu? – Perguntou assustado.

- Um homem estranho, beija sua mulher na boca e ainda te xinga dentro do bar que você frequenta há anos. Vira homem, homem. Dá um jeito nisso.

Altamiro enfiou o veneno no bolso e quando se aproximava da mesa da mulher, ela novamente beijou o homem. Dessa vez, justificou:

- Amor, o beijo na boca é comum na nossa família, sabia? Todo mundo faz isso. É uma forma de expressar carinho.

Altamiro fervilhou por dentro, aturava a infidelidade da mulher, mas a mentira ele não suportava.

- Um segundo, vou fumar um cigarro.

Minava de suor quando atravessou a porta do bar, caminhou de encontro à esquina e depois de exatos quinze passos, chamou um moleque de rua.

- Quer ganhar um trocado? – Perguntou trêmulo.

O menino assentiu com a cabeça e Altamiro explicou:

- Você deve pingar duas gotas no copo do homem de bigode que está sentado ao lado de uma mulher, entendeu? Mas eles não podem perceber.

O menino com um sorriso largo no rosto, pegou o frasco, o dinheiro e entrou no bar. O português notou o frasco que o menino tentava esconder embaixo da camisa e, na esperteza, chamou a atenção do casal.

- Vocês podem me dar uma pequena ajuda aqui? Segure isso aqui. – Disse o português entregando alguns pacotes na mão dos dois. – Vou pegar a escada lá no fundo do bar. Tenho que guardar isso na última prateleira.

O moleque, com bastante agilidade, esgueirou-se entre as mesas até chegar ao objetivo. Tirou o frasco da cintura, abriu e ficou na dúvida em qual dos dois copos seria. Não demorou muito pra perceber que um dos copos estava sujo de batom, não pestanejou e desperdiçou duas gotas no outro, o limpo. Noêmia, depois de uma breve golada, instantaneamente, espatifou-se no chão, contorceu e espumou até à morte.

A primeira pessoa que Altamiro encontrou no enterro da mulher foi Jorge. Estava com a mesma jaqueta preta e dessa vez com um batom menos chamativo. Fingiu que não o viu e foi até a beirada do caixão e, por alguns segundos, o recém viúvo, ficou contemplando o pálido rosto da mulher. Logo perdeu a atenção quando viu uma leva de parentes chegando ao local, todos foram recebidos com beijos na boca.

Altamiro sentiu um peso forte na consciência, precisava beber alguma coisa, resolveu sair e encontrar alguma birosca na redondeza. Foi quando a sogra segurou-o pelo braço e apresentou-o como o viúvo aos parentes que acabaram de chegar.

- Esse é Asdrúbal, o tio de Noêmia. – Apresentou a sogra. – Essa é Carlota, a tia. Esse é o Juninho, priminho caçula e essa é Manoela, a prima.

Altamiro olhou a jovem dos pés a cabeça. A moça tinha imensos e resistentes seios que escapavam salientes num apertado decote, a camisa, curta, deixava à mostra os pêlos dourados da barriga, a calça estava apertada e delineava todas as dobras das duas grossas coxas. Ele não resistiu, assim que ela deu-lhe os devidos pêsames, Altamiro pegou-a pelo pescoço e a beijou na boca.

- Mesmo com Noêmia não estando mais conosco, considero-me parte dessa família e não deixo a tradição de lado. – Disse forçando uma voz embargada.

Novamente ele agarrou a moça, dessa vez com mais força, e deu-lhe um longo e demorado beijo.

- Obrigado mesmo. - Concluiu.


25.9.09

Matilha Fantástica II

Acordei, fiz um café e sentei no sofá da sala. Era uma sexta-feira chuvosa e o silêncio, apesar do barulho dos carros na rua, governava, pois não havia ninguém em casa, todos os meus companheiros da república estavam na faculdade. Como não tínhamos TV à cabo, a programação matinal da TV aberta estava horrível, logo, pensei em outra coisa pra fazer.

Era umas dez da manhã quando entrei no bar e pedi uma cerveja. A loura, geladíssima, desceu licitamente pela garganta. Pedi uma porção de moela, pois o cozinheiro avisou que tinha cozinhado-a naquele momento. Foi a melhor parceira que minha cerveja encontraria àquela hora da manhã, lasquei-a de pimenta e salivei por uma cachaça.

- Do barril! – Solicitei ao Jorge.

Depois de seis garrafas, fechei a conta e fui embora. Precisava encontrar algum companheiro de copo e lá em casa, tinha três deles. Assim que cheguei, escutei o barulho do chuveiro, fui até a geladeira e peguei uma latinha pra esperar o dito cujo sair do banheiro, até então, eu não sabia quem era. Senti a bexiga cheia, a vontade veio com força, bati na porta.

- Anda rápido, quero mijar.

- Já estou saindo, estou tirando o xampu.

Eu não agüentava mais esperar, era meu amigo mais fresco no banho e tinha a certeza que ele demoraria mais uns vinte minutos. Corri pra cozinha e peguei uma garrafa de refrigerante de um litro, vazia. Não pensei duas vezes.

Quase entornou, mas tudo ocorreu bem. Lacrei-a e deixei num cantinho da área de serviço. Vinte minutos depois, meu amigo saiu do banho, conversamos e resolvemos voltar pro botequim. Esqueci da garrafa.

Horas depois, após garrafas e mais garrafas de cerveja, voltamos pro cafofo. Assim que abrimos a porta, eu avistei a garrafa “cheia” em cima da mesa do computador, com um pano de chão ao lado. Primeiro ri, mas parei quando a mãe do meu outro amigo nos cumprimentou.

- Essa casa está uma bagunça. – Esbravejou ela.

Rimos sem graça.

- Estou fazendo uma faxina. Que produto é esse aqui? – Perguntou ela pegando a garrafa com meu mijo.

Fiquei tenso e meu amigo, sem saber de nada, respondeu que deveria ser cloro.

- Cheirei e não tem cheiro de cloro. - Respondeu ela.

Eu tremi e tive que intervir.

- Não é cloro. Isso é um produto pra limpar tinta nanquim. – Aproveitei usando o meu curso de arquitetura.

- Se limpa nanquim, isso deve limpar tudo. – Ele exclamou alegre.

Tomei bruscamente a garrafa da mão dela, pois ela já estava pra entornar o mijo no pano.

- Nem pensar, isso é muito caro. É importado. Um litro custa cinquenta reais, quer dizer, dólares.

- Nossa que caro! – Disse ela, arregalando os olhos.

- 50 conto? Deixa eu cheirar isso. - Meu amigo, besta, tentou pegar a garrafa.

- Nada disso. Não pode ficar abrindo, pois evapora.

Fechei com força e carreguei pro meu quarto. Quando voltei, no corredor à caminho da cozinha, escutei a mãe do meu amigo falando:

- Perguntarei pra ele o nome daquele produto, minha sobrinha começará a faculdade de arquitetura e precisará de um desses. – Disse ela.

- A senhora terá que encomendar. – Explicou meu amigo. – É produto dos bons e importado.

9.9.09

O colecionador

Otacílio era um homem solitário, sem vícios, não tinha amigos e nem fazia questão. A notícia que deveria sair do apartamento onde morava chegou depressa e de repente. O dono, um italiano de sotaque carregado, avisou pelo telefone que a filha ficaria com o apartamento, depois que casasse. Otacílio morava a dez anos naquele lugar, conhecia os porteiros e todos os moradores, apesar de nunca ter falado com ninguém. Assim que colocou o telefone no gancho, abatido, tratou de encaixotar as coisas.

O caminhão de mudança, depois de três dias de arrumação, estacionou em frente ao prédio e os ajudantes ficaram perplexos quando viram as caixas arrumadas, simetricamente, uma ao lado da outra na sala do apartamento. Em cada uma estava escrito o que continha, onde ficava no velho apartamento e onde ficaria no novo. Os móveis todos desmontados e com os respectivos parafusos ensacados. Foi o trabalho mais fácil que fizeram. Horas depois, o caminhão, com toda a mudança, estacionou na porta do novo prédio.

Otacílio, com a indicação do antigo locador, encontrou facilmente outro lar, num canto mais ofuscado da cidade. Entrou no elevador, de grade corrediça, apertou o número dois e, rangendo, ele subiu vagarosamente. Enfiou a chave com dificuldade no miolo e, forçando com os pés, abriu-a. Era bem menor que o outro, mas por uma rápida análise viu que os móveis caberiam e ficariam postos como no antigo apartamento. Foi até a janela veneziana, puxou as duas portas de vidro para dentro e emburrou as de madeira para fora. Antes de olhar a vista, notou que o parapeito estava cheio de palitos de fósforo. Com as mãos, jogou todos para baixo. Em três dias, arrumou tudo e se tivesse amigos, eles achariam frequentar o mesmo apartamento.

Na primeira noite, teve dificuldade em dormir, portas batiam toda hora, havia movimentação constante no elevador e o botequim, da esquina, só fechou às cinco da manhã. Foi exatamente na hora em que se levantou e abriu a janela da sala, que notou, novamente, um monte de palitos queimados sobre o parapeito. Com o auxilio do espanador, Otacílio empurrou todos os palitos para fora.

Durante toda a semana, ele esbarrava com os palitos, mas como era recente no prédio, não quis reclamar, deixou de lado, para evitar brigas com a nova vizinhança. Depois, pensando melhor, parou de jogar os palitos para fora, começou a guardá-los numa caixinha, assim não incomodaria o vizinho debaixo e arrecadaria provas para uma futura reclamação.

Todos o dias ele juntava em média dez palitos, queria descobrir o mentecapto que arremessava os fósforos, não pra bater boca, mas apenas analisar a cara da pessoa e descobrir se é de pau ou de bobo. Quando entrava no elevador e encontrava com alguém, examinava a dos pés à cabeça.

Num sábado, pela manhã, quando abriu a caixinha para colocar mais palitos, notou que quase não cabiam mais. Foi até ao centro e, com sucesso, encontrou uma loja repleta de caixas, de todos os tipos e tamanhos. Comprou a mais parecida, aproveitou e levou duas pequenas trancas, com cadeados. Já em casa, pegou a chave de fenda na caixa de ferramentas e aparafusou a tranca nas duas caixas, fechou a que estava cheia, guardou-a na estante e colocou a nova, aberta, no lugar da antiga.

Domingo pela manhã, acordou e, como sempre fazia, abriu a janela. Estranhamente não havia nenhum palito. Passou a tarde inteira, sentado no sofá da sala, olhando para a janela aberta, mas nenhum palito caía. Segunda, Otacílio acordou bem mais cedo que o habitual e correu para abrir a janela, mas, para a tristeza dele, nada se empoleirava no parapeito.

Ficou aflito, foi até a cozinha e interfonou para a portaria, com um total estranhamento do porteiro, atrás de explicações. Foi avisado que o morador de cima havia mudado e que o apartamento ficaria um bom tempo sem locatário, pois entraria em reforma. Sentiu um vazio, imenso, dentro do vazio espesso que já vivia, pegou o jornal, abriu na página de imóveis e tachou alguns anúncios com a caneta. No outro dia, ligou para todos os corretores e marcou as visitas.

A primeira coisa que Otacílio fazia, assim que entrava no apartamento, era abrir a janela e, numa breve análise, virava para o corretor dizendo que não havia gostado, nem fazia questão dos outros cômodos. Passou por vários imóveis e utilizou repetidos corretores, alguns, de antemão, não queriam nem atendê-lo.

Otacílio partiu sozinho para os confins da cidade. Depois de duas horas dentro do ônibus, chegou num bairro esquecido pelo mundo, onde parou de frente a um imenso conjunto de prédios. A maioria dos apartamentos tinham janelas quebradas, varais de roupas dependurados, paredes pichadas por vândalos e um odor horrível, que ele sentiu assim que desceu do ônibus.

Caminhou até um homem, vestido com maus trapos, que varria uma imensidão interminável de sujeira e perguntou se haviam apartamentos vagos. O homem se identificou como o zelador do local e disse, com um sorriso sem dentes, que todos os apartamentos do térreo estavam vagos. Otacílio não precisou perguntar o porquê, pois assim que entrou no apartamento e abriu a janela deparou-se com os palitos de fósforos, bitucas de cigarros, cotonetes, preservativos, absorventes e outras coisas que não conseguiu identificar, tudo sobre o parapeito.

- Quando vence o aluguel? – Perguntou, instantaneamente, ao velho zelador.

31.8.09

Vícios, cascos e mentiras.



Com vergonha em devolver a quantidade de cascos de cervejas que pegamos emprestados no bar do meu bairro, resolvi, em pensamentos embriagados, inventar uma história pro dono. Chamei o camarada no balcão e disse que a mãe do meu amigo, - Aquele sentado ali. – Apontei. - vendeu recentemente um apartamento na Tijuca e estava se desfazendo das quinquilharias, inclusive vários vasilhames de cerveja, que estavam atravancando a estadia do novo dono. Depois da letra mandada, perguntei se ele estaria interessado nas garrafas. Ele aceitou. Subimos em casa, juntamos todos os cascos, quase quarenta garrafas, e entregamos. Naquele mesmo dia subimos com oito garrafas.

As oito se transformaram em catorze, em seguida, em vinte e duas, semana depois, tínhamos, novamente, quase dois engradados no estoque. A namorada dele, brava com aquele entulho lá, pediu para devolvermos.

- Mas e a vergonha?

– Devolve aos poucos. – Falava ela.

– Não dá certo. – Respondíamos. - Pois levamos aos poucos e pegamos aos montes.

Noutro dia, depois de algumas cervejas, tomei coragem e contei a mesma história: A mãe do meu amigo, outro apartamento vendido, as quinquilharias, garrafas e etc... Com uma cara de remorso, muito diferente da primeira vez, ele aceitou.

– Trás lá. – Disse ele.

Subimos outra vez, ensacamos os cascos e, felizes, entregamos. Quando saíamos aliviados do bar, ele nos deteve.

– É o seguinte, - Começou, em baixo tom e ainda com a cara de pesar – Sei que não tenho nada com isso e não devo me meter na vida alheia, mas esse probleminha que sua mãe tem com o álcool é igual ao que minha mãe teve. Começa com um apartamento, depois vai outro, depois vende o carro, a TV ela troca, acarretam as dívidas... Sabia que tem tratamento pra isso?

21.8.09

Vida privada

Apaixonada pelo marido, Dolores, mesmo com o diploma do magistério em mãos, resolveu abandonar a profissão e trabalhar apenas em casa, cedendo toda a atenção ao marido. A mulher era a dedicação em pessoa, assim que se levantava da cama, antes mesmo de qualquer coisa, abria todas as janelas da casa para o ar entrar e arejar o ambiente, o marido tinha uma rinite devastadora e com qualquer umidade ficava com o nariz entupido. Depois, sem pressa, vestida numa camisola transparente, atravessava o jardim e pegava o jornal na caixa de correios, a molecada da rua, em polvorosa, esperava esse ritual todos os dias.

Na casa dos quarenta, a senhora Dolores conservava dois lindos seios e uma traseira imensa, batizada na redondeza como caçamba, de arrastar multidões. Todo sábado, quando a rua principal era fechada para a feira, Dolores desfilava de um lado ao outro, escolhendo legumes e verduras mais frescos. No final das compras, de sacola cheia, parava em frente à barraquinha de coco e bebia, no canudinho, bem em frente ao boteco, três cocos inteiros. Os beberrões ficavam loucos, queriam ajudar com as sacolas de qualquer forma, mas ela sempre negava. Apaixonada e muito fiel ao marido, Dolores agradecia e seguia sozinha, balançando a caçamba pra casa.

Quando o relógio batia onze e meia, Dolores refogava o arroz e colocava-o para cozinhar. Separava a página de esportes do jornal e colocava-a em cima da pia do banheiro, bem ao lado do cigarro varejo e a caixa de fósforos.

Rubens batia o cartão sempre no horário exato. Tinha o privilégio de almoçar a comida da esposa todos os dias. Morava ao lado da fábrica e com cinco minutos de caminhada já estava em casa. Dava duas voltas na chave, tirava os sapatos na varanda e, sem cumprimentar a esposa, seguia direto pro banheiro. Rubens não conseguia usar o banheiro em nenhum outro lugar, só se sentia seguro no sanitário de casa, olhando os azulejos portugueses, que cobriam somente a metade da parede, e escutando o canto do trinca-ferro no quintal.

Depois do trabalho feito, Rubens cumprimentava a esposa com a cabeça e se sentava para almoçar. Entrava e saía de casa calado, pra ele, a hora das necessidades fisiológicas e da alimentação eram sagradas. Dolores nada perguntava, aceitava com respeito o silêncio do marido.

Os boatos que contornavam o bairro diziam que Rubens estava de caso com Virginia, faxineira da empresa no qual ele trabalhava, mas Dolores não acreditava nas fofocas da vizinhança e mantinha o matrimônio sem abalo. Até que um dia, o mundo perfeito de Dolores desabou. O marido, após algumas doses de cachaça, confirmou o caso extraconjugal e decidiu morar com a outra.

Os homens da vizinhança, desde então, não pararam de rodear a casa da desquitada. Todos queriam servir de alguma forma para a recém solteirona, mas Dolores não saía mais de casa. Depois de três dias trancada, agarrada ao terço e em lágrimas, escutou alguém bater à porta. De camisola transparente, caminhou e abriu a portinhola da porta. Era Rubens, banhado de suor e com um entranho pesar na face. Rapidamente ela abriu a porta.

- Aconteceu alguma coisa? – Perguntou assustada.

- Preciso cuidar da minha vida privada. – Disse ele, antes de correr para o banheiro.

Rubens continuou morando com Virginia, mas todos os dias, a desquitada Dolores, assim que colocava o arroz pra cozinhar, separava o jornal de esportes e o colocava em cima da pia, junto ao cigarro varejo e a caixa de fósforos. Ainda apaixonada, Dolores, sentia imenso prazer em não deixar outro homem cuidar da vida privada dela.